Sistema de Identidade Visual: Cooperativa Nossa Terra

Uma marca que só apareceu quando estava pronta. Como diagnóstico, critério e sigilo levaram a nova identidade de uma cooperativa de 25 anos, inteira, até o dia da revelação.

Em 22 de setembro de 2026, a Cooperativa Nossa Terra completou 25 anos e apresentou sua nova marca. Quem estava no Centro Comercial Nossa Terra, em Erechim, viu o símbolo pela primeira vez no telão. Quem acompanhou pela transmissão ao vivo no Facebook também. Até aquela noite, nenhuma peça tinha antecipado o desenho.

Esse resultado não depende de talento gráfico. Depende de método. Neste case contamos o caminho: o que ouvimos antes de desenhar, os critérios que a diretoria aprovou, como o conceito nasceu, como protegemos o segredo e como organizamos o dia em que a marca passou a existir. Durante todo o projeto, quem esteve na frente foi a cooperativa. O nosso trabalho foi garantir que a marca chegasse inteira.

Foto: Ketlheen Koch

O ponto de partida

A Nossa Terra é uma cooperativa de agricultura familiar de Erechim, no norte do Rio Grande do Sul, constituída em 22 de setembro de 2001. Reúne 1.250 associados e leva alimento a 12 estados.

Uma cooperativa com esse percurso não troca de marca como quem troca de roupa. A marca antiga, com mãos e uma planta, tinha um sentido próprio e estava instalada nas fachadas das unidades. Qualquer proposta nova precisava responder a essa realidade concreta, e não apenas ao gosto de quem desenha.

Organizamos o projeto em quatro fases: Diagnóstico Estratégico de Marca, Redesign, Normatização e Brandbook, e Implantação.

Escutar antes de desenhar

A primeira fase não produziu nenhum desenho. Produziu entendimento.

Fizemos dez entrevistas em profundidade, organizamos o que ouvimos numa matriz de escuta e entregamos um relatório técnico com as diretrizes de criação. O diagnóstico foi concluído em abril de 2026.

Em paralelo, montamos um painel de referências em quatro territórios: cooperativas brasileiras, cooperativas agroalimentares de outros países, marcas brasileiras de origem premium e marcas de fora do setor com estatura visual. Um painel assim permite à diretoria enxergar a própria marca ao lado de outras antes de decidir qualquer coisa.

Muitas diretorias começam um redesign pedindo opções de logotipo. Preferimos começar perguntando o que a marca precisa sustentar. É o diagnóstico que dá à diretoria base para aprovar ou recusar uma proposta com argumento, e não por impressão.

As diretrizes

Do diagnóstico saíram os critérios que orientaram toda a criação:

Redesign total, preservando o sentido da marca antiga. Abstração do símbolo de mãos e planta, em vez de redesenhá-lo. Manutenção da forma circular, por causa das fachadas já instaladas nas unidades. Atemporalidade de 10 a 20 anos. Uma marca simples na forma e rica no conceito, capaz de ir do bordado ao caminhão e de funcionar tanto no institucional quanto na gôndola.

Cada diretriz aprovada funciona como um filtro. A partir dela, a conversa sobre a proposta deixa de ser “gostei” ou “não gostei” e passa a ser “atende” ou “não atende”. Para uma diretoria, é a diferença entre decidir por preferência e decidir por critério.

O conceito

A nova marca parte de três elementos. O sol representa a origem. A folha, o crescimento. O recipiente representa o alimento e guarda o gesto de acolher e oferecer que já estava nas mãos da marca antiga.

A síntese do conceito cabe numa frase: “O sol nasce, a terra acolhe, a vida brota.”

Nesse ponto a primeira diretriz se cumpre. O símbolo mudou por completo, o significado permaneceu. Para acompanhar o desenho, a tipografia escolhida foi a Archivo.

O manual

Marca sem norma se desgasta no primeiro fornecedor que a aplica do seu jeito. Na terceira fase, transformamos o conceito em regra: o manual de identidade, que diz como a marca se aplica e em que condições.

A diretoria aprovou o manual em 25 de agosto de 2026. Com ele aprovado, a marca estava pronta. Faltava apresentá-la.

O sigilo

Tratamos o sigilo como parte da governança do projeto, com uma definição clara desde o início: só o desenho era segredo. O projeto não era escondido. O símbolo, sim.

Os fornecedores envolvidos assinaram termo de confidencialidade. Nenhuma peça antecipou a marca. O material com a identidade nova chegou aos 11 veículos contratados só no momento da revelação, junto com o público do evento.

Uma marca que vaza antes da hora chega ao público pela porta errada, sem contexto e sem a voz de quem a criou. Proteger o desenho foi a forma de garantir que a primeira vez fosse a certa.

Foto: Ketlheen Koch

A revelação

A marca foi apresentada no dia do aniversário de 25 anos, no Centro Comercial Nossa Terra, em Erechim, para cerca de 150 convidados: colaboradores, dirigentes, conselheiros, entidades, fundadores e feirantes. A cerimônia teve transmissão ao vivo pelo Facebook.

Estruturamos o protocolo em 11 momentos. Um deles foi o vídeo “Carta de quem plantou”, com vozes de fundadores, roteirizado e editado por nós. Outro foi o cortejo dos símbolos, na ordem do ciclo da marca, que começou na terra e terminou na governança. Em seguida, a revelação no telão.

Uma escolha de protocolo resume o método: o microfone foi só da cooperativa. A consultoria preparou o caminho e não falou. Quem apresentou a marca foi quem vai conviver com ela.

“Esta marca nasceu de ouvir a nossa gente. Ela mudou de forma, mas continua dizendo o que a Nossa Terra sempre foi: uma cooperativa que acolhe o trabalho de quem planta e leva esse alimento até a mesa de quem compra.” Adelmir Gaiardo, presidente da Cooperativa Nossa Terra.

A nova marca está em vigor desde 23 de setembro de 2026.

Foto: Ketlheen Koch

O que vem agora

A quarta fase, de implantação, está em curso. As primeiras frentes são a frota, o uniforme e a embalagem âncora. É onde as diretrizes de ir do bordado ao caminhão e de funcionar na gôndola saem do manual e passam para o dia a dia da cooperativa.

O que esse caso ensina

Toda diretoria que pensa em mudar de marca tem vontade de começar pelo desenho. O desenho vem depois. Antes vem ouvir, depois fixar critérios que a própria diretoria aprove, e só então criar. E a marca nova merece proteção até o dia em que a instituição decide mostrá-la, com a própria voz. Mudar de marca é uma decisão de governança antes de ser uma decisão estética.

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